Mané, você passou a sua infância e parte da sua adolescência em Moçambique. Esta mestissagem de culturas, contribuiu, de alguma forma, para o seu despertar artístico ?
Sem dúvida alguma. Vivi em Moçambique dos 7 aos 16 anos e creio que é por essa razão que canto o Fado com a verdade dos indígenas desse país. Guardei em mim a pureza das amizades e essa forma directa de abordar os sentimentos. Tenho África no coraçao e na alma.
Em que condições descobriu o Fado ?
Foi numa época em que, sendo Assistente de Bordo, alguns amigos me propõem de ir a Cascais, na marginal de Lisboa. Soube mais tarde que, do Fado, uma certa elite aí fazia ninho. Mesmo não sendo uma grande conhecedora desta forma de expressão musical dado que eu vinha do clássico, impôs-se a mim uma evidência, - cantá-Lo -. Porque o Fado não se aprende, sente-se, tudo aconteceu ràpidamente.
Quais eram os seus intérpretes preferidos ?
Mesmo se, inevitàvelmente, os meus primeiros Fados foram os de Amália, devo as minhas verdadeiras influências a três grandes intérpretes : Lucília do Carmo, Carlos do Carmo, e Alfredo Marceneiro. Eles souberam dar a cada palavra uma força de expressão que definia e legitimava toda a intensidade do texto. Tudo isto aliado a uma enorme técnica quase « d’avant garde » para a época.
Quando se produziu o seu encontro com América Rosa e Maria Da Fé ?
À Minha chegada ao Porto, na minha fase de vendedora de publicidade, comecei, naturalmente, a frequentar as casas de Fado. Aquando duma « Noite do Fado » organizada, anualmente, no mais importante Teatro da cidade e para a qual eu estava convidada, América Rosa foi a minha madrinha de Fado. Em seguida, Maria da Fé e Deolinda Rodrigues, em Lisboa, convidam-me a cantar, pela primeira vez como profissional.
De que maneira a ajudaram ?
Dando-me a possibilidade de me apresentar nas suas próprias casas de Fado, com toda a liberdade de descobrir e implantar o meu estilo e maneira, já muito próprios, de cantar o Fado.
Entre 1975 e 1987, os concertos sucedem-se no estrangeiro. Depois instala-se em França e em seguida…Mais nada. Parece ter posto a sua carreira entre parênteses, até hoje. O que aconteceu ?
Exactamente antes de vir a Paris em 1983 eu cantava no « Faia », uma casa de Fado que tinha tido como proprietários Lucília do Carmo e em seguida o seu filho Carlos do Carmo que tive o imenso privilégio de conhecer. A convite de um guitarrista português radicado em França, o contrato passou de um mês a alguns anos. Aqui continuei a cantar, mas de uma maneira mais discreta e com os meios de que dispunha, nos restaurantes e salas, em virtude de não existirem em França verdadeiras « Casas de Fado » como em Portugal.
Qual a razão desta longa espera para fazer um album ?
Porque ninguém, para além das minhas qualidades artísticas, teve o cuidado de parar e ganhar o tempo de me conhecer. Além disso, devo confessar que nunca consenti em fazer concessões nem acordos para poder gravar a todo o preço e isso só foi favorável à minha integridade…Foi no momento em que, por força das circunstâncias, eu me resignava a pôr pràticamente de lado a minha carreira, que o encontro inesperado aconteceu.
Porquê o título de « Subtil » como escolha para o seu album ?
É uma escolha comum aos meus colaboradores e a mim. Procurávamos um título susceptível de ser compreendido, tanto em francês como em português. Esta palavra « Subtil » impôs-se pela sua elegância e porque ela reflete bem a intenção e a verdade do conteúdo do album. Creio que ela adjectiva bem a minha maneira de cantar onde aflora uma certa subtilidade. Muito antes da moda actual eu já tinha « viajado » pelas entranhas do Fado, emprestando-lhe laivos de jazz e blues. Por e para este album eu regressei dessas « viagens » longínquas e vim ao encontro de um estilo que enriqueci com essas experiências e que me permite, creio eu, pretender a dar-lhe essa noção de subtileza.
O que presidiu à escolha dos títulos ?
Sinto-me tentada a dizer-lhe que não os escolhi. Era imperativo ir muito depressa. Parti para Portugal ao encontro dos músicos com os quais eu tinha decidido trabalhar e do meu grande amigo Fernando João, ele também fadista e poeta. Dado que eles me conhecem bem, fàcilmente puderam propôr-me títulos inéditos, assim como algumas reposições. Aceitei, sem reticências, as suas escolhas porque, para além das qualidades de autor e compositor, os inéditos correspondiam ao meu estado de espírito daquela hora e da visão exterior da mulher que sou, com uma filosofia de vida muito própria. Por conseguinte, nem tudo isto veio de mim, mas era de mim.
Tem uma preferência especial por algum dos Fados ? Se sim, porquê ?
Para além dos poemas que escrevi, dos quais « Encontro », há um que tem a minha preferência « Volta se queres ». A música original e o texto que me convida a uma viagem interior e retrospectiva chegaram no melhor momento da minha vida, momento esse em que sinto a necessidade de me reencontrar. Aliás, é título de abertura do album.
A Mané pediu ao Nel Garcia e ao Samuel Cabral, guitarristas que vivem em Portugal, para a acompanharem neste album. Porquê ? Não há bons guitarristas em França ?
Como já tive a oportunidade de dizer, foi pelo facto de ter trabalhado bastante com eles ; conhecem-me bem e o seu talento responde, perfeitamente, à minha sensibilidade. Não precisamos de explicações para definir essa simbiose. Escolhê-los foi também a melhor maneira de lhes agradecer e de render homenagem à sua amizade, à sua simplicidade e à sua grande fidelidade. Conheço bons músicos em França, mas…muito bons…
Que pensa da nova geração de intérpretes do Fado ?
Na minha opinião há alguns « verdadeiros fadistas » nesta nova geração. A diferença reside no facto de que só alguns são bons intérpretes. Ser intérprete é ainda a melhor homenagem que possamos fazer a um cantor. É a melhor qualidade e o grande trunfo, muito para além da potência da voz, embora cantar seja utilizá-la diferentemente. Nova geração pode entender-se por uma nova maneira de cantar o Fado, porque o Fado não é novo, ele renova-se. Alguns fadistas tentam dar-lhe novas cores e uma nova vida, como aliás eu posso fazê-lo mas sempre tomando a precaução de não o trair. Um bom cantor pode não fazer, forçosamente, um bom fadista.
Onde se situa a Mané, relativamente a esta emergência ?
Não seria sem dificuldade que poderia fazê-lo. Não consigo aceitar, embora na sua maior parte sejam bons cantores, a revindicação de alguns, do estatuto de fadista e esta nova geração que se outorga esse direito ; os que estão neste caso, não é Fado o que cantam. Para contrabalançar esta tendência, mesmo se, por vezes, os meus conhecimentos musicais me tentam, eu tento restituir ao Fado, aliando o meu estilo à minha experiência, a autenticidade que ele merece. Quero afirmar, no entanto, que não sou nem excessivamente purista nem, muito menos passeista – sou, sem dúvida, fadista.
O que representa hoje, para si, este album ?
Menos que um alvo ou um fim, ele representa toda a minha vida, todos os meus desejos, o meu amor e a fascinação que sempre pus ao serviço do Fado. É o resultado de tudo isto. Inesperado, é algo que eu não mais acreditava possível.
Depois desta nova experiência, como encara o futuro ?
Mesmo se sonho ainda de muitas coisas porque esta gravação me renovou vontades, não sei se me darão a oportunidade de ir mais longe. Por isso vivo o dia a dia e creio que quase não me importaria de morrer…profissionalmente.
Que futuro para o Fado ?
O ano passado, aquando da minha citada visita ao Porto, reencontrei o que tinha conhecido, há 20 anos. Não notei nenhuma modificação no meio fadista - nem evolução nem renovacão -. Mesmo da vintena de casas de Fado que existiam, sòmente duas restam, moribundas, uma das quais « O Fado » onde trabalham o Samuel Cabral e o Nel Garcia. Apesar de tudo, espero e creio que o Fado tem futuro e desejo que as novas gerações saibam e queiram, tal como eu, dedicar-se de alma e coração a fazer conhecer o verdadeiro Fado, independentemente dos fenómenos de moda e restituam a esta canção, as raizes que o tornarão perpétuo, imortal.